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Faz um tempão que eu não escrevo nada aqui. Perdoem-me meus queridos, mas estava absorvido em minha vidinha. Tomado por uma onda de egoísmo que me impedia de pensar em partilhar qualquer coisa, mesmo meus pensamentos. Mas eis que brilhou uma luz e eu me voltei para fora de mim outra vez. Mas isto não é assunto para hoje.

Para quem não sabe o assunto do dia são as Olimpiadas Rio2016. Ops. Quero dizer Olimpíadas Rio2016. Olim“piadas”. Que piadinha mais manjada. Nem teve graça. Bem, voltando ao assunto, a escolha da cidade sede das Olimpíadas de 2016 pararam o Rio de Janeiro, ou pelo menos o grupo que se reuniu na praia de Copacabana para curtir o show de Lulu Santos. Sem contar com a imensa multidão que aproveitou o ponto facultativo para ir à praia dar uns bons mergulhos sem nem perceber o que acontecia na areia. Afinal de contas, festa em Copacabana tem todo dia, ponto facultativo é que é novidade.

Sei lá. Tô só especulando, não conheço o Rio, nem sei se lá será um bom lugar para sediar as Olimpiadas (lá vai eu de novo com essa piada velha), mas que a força da mídia me convenceu, convenceu. Eu não tava nem aí pra esse negócio de Olimpíadas e, de repente, me vi diante da televisão hipnotizado esperando o resultado da escolha, sentindo toda a tensão, sendo conduzido pelas palavras de Tande a me sentir como numa final de campeonato. E assim como muita gente nem percebi que na Indonésia 3000 pessoas ainda podem estar soterradas, inclusive um médico brasileiro, que 18 pessoas morreram nas inundações na Sicília e 40 num naufrágio no rio do Congo, que a situação em Honduras continua na mesma e a OEA promete um início de diálogo ainda para a semana que vem, além de tantas outras maravilhas que aconteceram no nosso congresso e senado ou nas nossas favelas, inclusive as do Rio2016.

E daí? O que importa é que somos o país da Copa 2014, o país das Olimpiadas 2016 (piadas de novo) e como disse o nosso presidente (o cara) “O Brasil não pode ter Olimpíadas por que tem criança com fome? Por que tem favelas? Vamos mostrar o que a generosidade do povo brasileiro pode fazer.”

Veja fotos belíssimas da festa pela escolha do Rio2016 aqui.

As pessoas vão para a frente da TV procurar seus heróis. Mesmo que sejam instantâneos como leite em pó, o que importa é que vivam segundo valores que a maioria da população esqueceu de viver, mas reconhece e admira. E não importa se são reais ou obras de ficção (é só observar o fenômeno das novelas). De qualquer forma eles não perdurarão mesmo, existiram apenas enquanto forem notícia ou estiverem em sua temporada de exibição. Aí as pessoas encontram seus modelos. Encontram motivação para seguir em frente, algo por que lutar, exatamente como se fazia com os santos.

Então compreende-se o motivo de tanta gente torcendo pela vitória do mais fraco. Solidária com o sofrimento da mocinha do filme. Orgulhoso do gari que encontrou uma mala de dinheiro e devolveu ao dono. Feliz por ver tanta gente ajudando quem perdeu tudo durante a última tempestade. Mesmo que isso não lhe leve a sair do sofá para agir da mesma, ao menos abre um horizonte de esperança diante da humanidade. O ser humano tem jeito. E acreditar nisto está cada dia mais importante. É o único jeito de não cair no desespero generalizado achando que ninguém é bom, que não há salvação.

Olha só o que eu disse. Coloquei os heróis da TV fazendo o papel de Jesus Cristo, dando aos homens esperança de salvação. A Santa Mãe Igreja que me perdoe a heresia, mas é justamente nestes heróis que as pessoas tem procurado a esperança perdida. Admitem que o presidente falhe, que a polícia falhe, que a família falhe, talvez admitam até que a Igreja falhe. Consideram tudo isso normal. Afinal são todos humanos. Mas continuam precisando de um elemento infalível, que lhes sirva de modelo a ser seguido.

A verdade é as referências se perderam e não sabemos o que fazer. Jesus Cristo talvez seja a única referência que realmente preencha os requisitos para assumir o cargo de referência infalível para o homem. Mas o acesso a ele está tão burocratizado, tão dificultado, que num mundo de praticidades, onde tudo acontece muito rápido, é preferível encontrar modelos mais adequados à realidade vigente, práticos, rápidos, simples e descartáveis. Mas então a referência volta a se desfazer e a necessidade de um eterno não nos deixará em paz jamais.

Um dia desses, mergulhado na inércia da modernidade, enquanto assistia a TV Globo, fui surpreendido por um comentário da minha mãe às declarações dos telespectadores a respeito dos participantes do “No Limite”. Todos criticavam os participantes que usavam de astúcia excessiva no jogo, os que manipulavam os outros para alcançar suas metas. Mas, ao mesmo tempo, cobravam uma atitude mais enérgica dos que eram manipulados, no sentido de vencer o embate.

A respeito destas declarações minha mãe sentenciou sua opinião, da qual não me recordo literalmente, de que as pessoas criticam os desonestos, mas agem como eles (foi alguma coisa parecida com isso, talvez menos forte que isso). A partir daí comecei a pensar numa coisa: As pessoas estão procurando heróis. É justamente isto que as pessoas querem, heróis. Buscam desesperadamente por alguém que surja coberto pela capa da justiça e do bem para lhes trazer esperança. Alguém que sirva de modelo a ser seguido.

Durante muito tempo a nova sociedade brasileira, essencialmente católica, teve seus heróis nos santos. Olhava para eles e encontrava modelos seguros e irreprováveis da moral e dos bons costumes. Os mais entusiasmados esmeravam-se em imitar seu santo de devoção, reproduzindo suas ações e palavras. Tivemos os heróis da Independência (hum, ah tá), mas alguns deles eram ainda comparados aos santos para reforçar sua condição de heróis. O exemplo mais gritante é Tiradentes que teve sua biografia e representação aproximada à vida dos mártires ou até mesmo de Jesus Cristo com seus cabelos cumpridos, barba cheia, túnica branca e morrendo por todos, só faltou a cruz. Depois vieram os tempos dos heróis da revolução. O fim da ditadura produziu inúmeros heróis, muitos deles ligados à religião. A partir daí apareceram os heróis políticos.

Mas agora? Quem são os heróis? Os políticos do tempo do heroísmo ou estão mortos, ou penduraram suas capas, ou não resplandecem mais. Os heróis da revolução, estes ou tornaram-se heróis políticos (dos quais já falei) ou se apagaram antes disto, ou morreram. Nestes anos perdemos a capacidade de memória, então heróis mortos não resolvem muita coisa. Os santos também estão mortos (até porque o elemento religioso não têm sido levado muito em conta ultimamente). Então, onde estão os heróis? NA TELEVISÃO.

 

A parte 2 será publicada no dia 15 de setembro.

Independência?

Publicado: setembro 7, 2009 em Política, Sociedade
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Salve os Dragões da Independência! Hoje é dia de celebrar a Proclamação da Independência. O vocábulo proclamar, aliás, é muito bem empregado aqui. No dicionário proclamar tem vários sentidos, um deles é promulgar uma lei. Bem, seguindo essa possível interpretação do termo posso crer que a Independência se deu por uma lei ou decreto que declara o Brasil um país … independente. Isso não pode dar certo. Lei aqui é uma coisa muito relativa. Algumas pegam, outras não pegam, depende muito da aceitação dos interessados.

Assim essa tal independência fica muito a critério da moda, da onda do momento. Quando a onda era a Inglaterra, nosso chá era deles. Quando os militares estavam na moda, estávamos de verde-oliva (e ficamos assim por mais tempo que os vizinhos, sinal de que gostamos mesmo da coisa). Aí veio a moda americana e nós aprendemos a comer chessburger com Coca-Cola. Com a globalização nos globalizamos. Teve BIRD, FMI. Enfim, vamos cumprindo o decreto de independência do jeito que dá.

Melhor seria considerar uma outra possibilidade de sentido para o vocábulo em questão. Arvorar-se em; tomar-se por. Como o louco que proclama-se Napoleão Bonaparte. Assim a proclamação teria sido um mero arvorar-se independente. Eu digo que sou independente e pronto. Fica mais fácil de entender a história do país dessa forma. É que estamos satisfeitos com o direito adquirido de disser bem alto INDEPENDÊNCIA OU MORTE. Alguns otimistas (governistas) declaram, baseados nos números da economia, que o Brasil está a alguns anos conquistando, de fato, a sua independência. Afinal de contas, só estamos presos ao gás do Chile, aos compradores de grãos, aos países com os quais temos acordos comerciais, aos organismos internacionais e alguns outros camaradas que só desejam nos ajudar a caminhar com as próprias pernas.

Mas tudo bem. Nossa independência nos garante pelo menos um belo feriadão de sol. Momento perfeito para os “excluídos” partirem em lotações para os balneários populares, ou fazer seu pagodão com cerveja e churrasco no quintal de casa.

Viva a independência!

O dia do fico

Publicado: agosto 21, 2009 em Política
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Fico cada dia mais impressiondao com a capacidaade de persuasão do presidente Lula. O homem seria capaz de convencer a família de Michael Jackson a se livrar do defunto.

Aloízio Mercadante, arauto da ética política, decepcionado com as ações covardes do seu partido (de novo) resolveu deixar a liderança da bancada. Decisão vista por muitos, em consonância com a saída de Marina, como um sinal deque a crise do senado teria alcançado o PT. Segundo as palavras do próprio Mercadante diversos colegas de partido, da base governista e mesmo alguns da oposição e outros com os quais não mantém relação tão sadia, insistiram para que ele voltasse atrás na decisão. Deixar a liderança não é a solução. Mas a frustação, o desgaste por tantas decepções, reforçados pelo pedido dos filhos, falaram mais alto. Aloízio estava decidido. O preço era alto demais.

Mas eis que surge a voz da mudança. Ele. O homem barbudo, dedo decepado, vestido em suas camisas baianas. O cara. Chegou de viagem (mais uma) e recebeu Mercadante em sua casa. Cinco horas de conversa. Revisão da vida, das lutas. Noite a dentro o presidente preparou o terreno que sacramentou com uma carta na manhã seguinte. “Mercadante, estamos juntos há trinta anos, travando as lutas que interessam ao povo brasileiro e mudando a história do País. Dificuldades e divergências fazem parte dessa caminhada, mas são menores do que ela. Em nome dessa história e dessa caminhada, fique na liderança.” Em nome dessa história, dessa caminhada, Aloízio ficou. Pediu desculpas aos filhos e ficou.

Mas não ficou calado. No seu discurso hoje pela manhã (senadores no Plenário em plena sexta-feira? Até Mercadante estranhou) elencou todos os “erros políticos” que o fizeram decidir deixar a liderança da bancada. Um discurso belíssimo. Falou da necessidade de se analisar o preço pago para mater certas alianças. Admitiu que é preciso resolver muita coisa nas bases do partido. Falou de sua trajetória no PT e de como o governo fez o Brasil crescer (?).

No fim das contas tudo continua como antes. O nepotismo continua uma verdade conhecida de todos, mas assunto proíbido. Sarney levará seu mandato até o fim. As denuncias foram arquivadas, junto com milhares de outras. Aloízio continua líder. E Lula continua o presidente mais amado do Brasil.

 

Leia o discurso completo de Aloízio Mercadante: http://mercadante.com.br/noticias/ultimas/mercadante-discursa-na-tribuna-sobre-crise-do-senado-e-sua-permanencia-da-lideranca-da-bancada