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Em busca de heróis III – A missão

Publicado: novembro 4, 2009 em Sociedade
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Muita gente pediu uma continuação da série em busca de heróis. Sinal de que eu escrevi algo de bom afinal. Após a morte de Lévi-Strauss fiquei me perguntando: – Quais são os pré-requisitos para se tornar um herói nos dias de hoje? Eu falei de santos, honestos, bombeiros e até de ingênuos como possíveis candidatos a herói. Mas, será que é por aí mesmo? Será que basta ser representante de um valor superior (transcendente) para ser um herói?

Penso sinceramente que o pai (ou a mãe) de família que consegue manter a coerência sustentando a casa com um salário mínimo (e bota mínimo nisso) é um herói nato. O estudante de escola pública que consegue, sem direito a cursinho, uma vaga numa universidade federal é digno de condecorações. Na verdade acho que um estudante de escola pública que não seja analfabeto funcional já está num bom caminho.

Aqui preciso fazer um a parte. Quando falo da escola pública estou generalizando (eu detesto generalizações mas admito que às vezes são inevitáveis). Existem sim escolas públicas que conseguem vencer as barreiras da burocracia e da inércia para oferecer um ensino de qualidade. Mas isto é assunto para outro post.

Voltando ao assunto. O morador de rua que não se deixa seduzir pela bebida, pela droga, nem se torna um criminoso é mais que herói, é um santo. Volto eu para a questão da honestidade. Mas ela é um elemento importantíssimo. Como a ética e a moral (se é que são diferentes entre si). Mas tenho observado um elemento que desde a década de 90 do século passado tem transformado os hérois dos quadrinhos. O héroi precisa ser humano. Ter defeitos, imagine só, é parte do heroísmo. Lutar contra si mesmo e vencer é uma característica do verdadeiro herói. Passar por cima do seu egoísmo, comodismo, medo. Vencer a própria mediocridade é o mais puro heroísmo.

Acho que encontrei minha resposta. E você o que acha? Fala disso também.

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O Homem perde seu tutor

Publicado: novembro 4, 2009 em Sociedade
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Enquanto muita gente teimava em tentar ver o homem através de números frios e sem sentido, Lévi-Strauss percebeu que a sociedade é fruto de estruturas, nem sempre conscientes, que não podem ser simplesmente quantificadas. Foi até o homem e, ao contrário dos cinetificistas que insistem no afastamento, aproximou-se do homem no seu meio social, para conhecê-lo, mais que para estudá-lo. Graças à sua coragem e paixão pelo ser humano as ciências sociais deram um salto qualitativo estupendo. O homem passou a ser visto como homem.

Morreu neste domingo aos cem anos de idade. Recebeu homenagens e congratulações em vida. Foi reconhecido por sua obra no mundo inteiro e é considerado um dos maiores pensadores franceses (era o maior pensador vivo). O mundo despede-se de forma justa e digna do antropólogo que mudou o jeito de ver o homem.

As pessoas vão para a frente da TV procurar seus heróis. Mesmo que sejam instantâneos como leite em pó, o que importa é que vivam segundo valores que a maioria da população esqueceu de viver, mas reconhece e admira. E não importa se são reais ou obras de ficção (é só observar o fenômeno das novelas). De qualquer forma eles não perdurarão mesmo, existiram apenas enquanto forem notícia ou estiverem em sua temporada de exibição. Aí as pessoas encontram seus modelos. Encontram motivação para seguir em frente, algo por que lutar, exatamente como se fazia com os santos.

Então compreende-se o motivo de tanta gente torcendo pela vitória do mais fraco. Solidária com o sofrimento da mocinha do filme. Orgulhoso do gari que encontrou uma mala de dinheiro e devolveu ao dono. Feliz por ver tanta gente ajudando quem perdeu tudo durante a última tempestade. Mesmo que isso não lhe leve a sair do sofá para agir da mesma, ao menos abre um horizonte de esperança diante da humanidade. O ser humano tem jeito. E acreditar nisto está cada dia mais importante. É o único jeito de não cair no desespero generalizado achando que ninguém é bom, que não há salvação.

Olha só o que eu disse. Coloquei os heróis da TV fazendo o papel de Jesus Cristo, dando aos homens esperança de salvação. A Santa Mãe Igreja que me perdoe a heresia, mas é justamente nestes heróis que as pessoas tem procurado a esperança perdida. Admitem que o presidente falhe, que a polícia falhe, que a família falhe, talvez admitam até que a Igreja falhe. Consideram tudo isso normal. Afinal são todos humanos. Mas continuam precisando de um elemento infalível, que lhes sirva de modelo a ser seguido.

A verdade é as referências se perderam e não sabemos o que fazer. Jesus Cristo talvez seja a única referência que realmente preencha os requisitos para assumir o cargo de referência infalível para o homem. Mas o acesso a ele está tão burocratizado, tão dificultado, que num mundo de praticidades, onde tudo acontece muito rápido, é preferível encontrar modelos mais adequados à realidade vigente, práticos, rápidos, simples e descartáveis. Mas então a referência volta a se desfazer e a necessidade de um eterno não nos deixará em paz jamais.

Um dia desses, mergulhado na inércia da modernidade, enquanto assistia a TV Globo, fui surpreendido por um comentário da minha mãe às declarações dos telespectadores a respeito dos participantes do “No Limite”. Todos criticavam os participantes que usavam de astúcia excessiva no jogo, os que manipulavam os outros para alcançar suas metas. Mas, ao mesmo tempo, cobravam uma atitude mais enérgica dos que eram manipulados, no sentido de vencer o embate.

A respeito destas declarações minha mãe sentenciou sua opinião, da qual não me recordo literalmente, de que as pessoas criticam os desonestos, mas agem como eles (foi alguma coisa parecida com isso, talvez menos forte que isso). A partir daí comecei a pensar numa coisa: As pessoas estão procurando heróis. É justamente isto que as pessoas querem, heróis. Buscam desesperadamente por alguém que surja coberto pela capa da justiça e do bem para lhes trazer esperança. Alguém que sirva de modelo a ser seguido.

Durante muito tempo a nova sociedade brasileira, essencialmente católica, teve seus heróis nos santos. Olhava para eles e encontrava modelos seguros e irreprováveis da moral e dos bons costumes. Os mais entusiasmados esmeravam-se em imitar seu santo de devoção, reproduzindo suas ações e palavras. Tivemos os heróis da Independência (hum, ah tá), mas alguns deles eram ainda comparados aos santos para reforçar sua condição de heróis. O exemplo mais gritante é Tiradentes que teve sua biografia e representação aproximada à vida dos mártires ou até mesmo de Jesus Cristo com seus cabelos cumpridos, barba cheia, túnica branca e morrendo por todos, só faltou a cruz. Depois vieram os tempos dos heróis da revolução. O fim da ditadura produziu inúmeros heróis, muitos deles ligados à religião. A partir daí apareceram os heróis políticos.

Mas agora? Quem são os heróis? Os políticos do tempo do heroísmo ou estão mortos, ou penduraram suas capas, ou não resplandecem mais. Os heróis da revolução, estes ou tornaram-se heróis políticos (dos quais já falei) ou se apagaram antes disto, ou morreram. Nestes anos perdemos a capacidade de memória, então heróis mortos não resolvem muita coisa. Os santos também estão mortos (até porque o elemento religioso não têm sido levado muito em conta ultimamente). Então, onde estão os heróis? NA TELEVISÃO.

 

A parte 2 será publicada no dia 15 de setembro.