Arquivo de novembro, 2010

Na cadeira do carrasco

Publicado: novembro 27, 2010 em Sei lá o quê

Hoje foi dia de ir ao dnetista. Sinceramente, meu dentista é gente boa. Cara jovem, comunicativo, bem humorado e não me cobra caro. Nada disso apaga aquilo que ele é. Ele é um dentista. Não há gentileza ou gracinha que faça este fato passa ao largo. Não há enfeite que esconda os chifres do coisa ruim. Tá bem, peguei pesado. Mas é quase como se dissesse: “Ele é o carrasco do Hittler, mas é gente boa.”

Dentista consegue ser pior ainda que carrasco. O carrasco deixa logo claro o que vem pela frente. Você olha na cara do carrasco á sabe, lá vem sofrimento e é dos pesados. E ele faz questão de que seja assim mesmo, já entra fazendo tipo, mostra logo os instrumentos de tortura e em algus casos, explica o que vai acontecer. Dentista não. Ele se veste bem, penteia o cabelo (nunca confie em alguém penteado demais), lhe recebe sempre com um grande sorriso que testemunha em favor da sua profissão e tenta lhe deixar tranqüilo.

Tranqüilo. Tranquilo. O cara tá com uma broca capaz de perfurar até pedra dentro da sua boca, brocando seu dente, qualquer escorregão pode cortar sua lingua fora e ele quer que vc fique tranquilo. Faz-me lembrar uma ginecologista que, preparando uma paciente para um procedimento de eletrocauterização, explicou: Essa placa metálica embaixo da senhora serve como aterramento e evita que a senhora seja eletrocutada, então é só ficar calma e não se mexer que dará tudo certo.

Pior é a gente até tenta ficar quietinho, afinal de contas tem uma broca ligada dentro da minha boca, mas dentista tem manias incuráveis pra nos ajudar. Eles sempre têm alguma coisa para fazer atrás de nós, fora do nosso campo de visão. O que é fácil já que nossa posição não ajuda muito. Esquece que a curiosidade intrinseca ao ser humano vai nos levar a tentar olhar pra trás, só pra ouvir um delicado: não mexa a cabeça agora.

Outra mania legal é a seguinte. A criatura te coloca um sugador de um lado da boca, o espelho do outro lado, te enche de algodão, a broca sempre lá dentro, sempre funcionando, e te pergunta o que vc achou do jogo do Corinthians ontem à noite. Como ele espera que a reposta aconteça? LIBRAS?* Até porque nas mãos vc tem uma toalha de papel e, no meu caso específico, um espelho. O espelho penso que seja uma particularidade. O cara gosta de me mostrar como está meu dente e o que ele vai fazer. Tipo Hanibal Lexter torturando sua vitima diante de um espelho para que ela saiba o que lhe está acontecendo.

Melhor de tudo é que ele vibra com tudo isso. “Pô, essa restauração vai ficar show”. Cara, ele passa horas futucando o dente, fura pra lá, fura pra cá, bota massa, e esculpe e desenha, e faz ranhuras. Poxa, ele deve estar esculpindo o próprio rosto no meu dente. E do jeito que fica alegre com o resultado tenho medo que resolva fazer uma exposição com as obras de arte feitas em meus dentes. Obras de arte mesmo. Porque, quando é uma clínica coletiva ele chama os colegas pra mostrar e ouvir os elogios.

Depois de tudo a gente ainda paga. O que é um publicano** diante de um dentista? O carrasco vira frade capuchinho. E não esqueça, terminada a sessão de tortura vc só pode comer alguma coisa dentre de uma hora.


*Linguagem Brasileira de Sinais – A linguagem dos surdos no Brasil.

**Judeu do tempo de Jesus que cobrava impostos dos outros judeus em nome do Império Romano e aproveitava para fazer seu caixa dois.

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Acabo de retornar de viagem. Fui aproveitar o feriadão em Salvador. Muito legal rever a parte da família que mora na capital. Ir à praia também é legal. Mas este post não é pra falar da minha família ou do amor que tenho por ela. A intenção é falar de uma coisa que a muito me incomoda. Os frutos dos avanços tecnológicos hodiernos.

Os aparelhos celulares incorporaram em si funções das mais diversas. Eles fazem fotografias, filmam, gravam, estão repletos de jogos, acessam a internet, organizam sua agenda pessoal, controlam outros aparelhos eletrônicos, armazenam arquivos, tocam música, exibem TV e até fazem ligações. Sem falar de tantas outras coisas que o celular pode fazer. Enfim, quem tem um celular hoje não tem apenas um aparelho telefônico móvel, tem uma central de entretenimento de bolso para levar onde quiser.

Mas será que o que é entretenimento pra vc é divertido para todos? Tanta gente adora pular de paraquedas e eu fico tonto só de subir em uma cadeira. Será que é certo obrigar o outro a participar do seu momento de diversão? Colocá-lo na sua festa mesmo que ele não queira? Sinto-me exatamente assim quando encontro com alguém com o som do celular ligado no máximo, tocando o mais novo sucesso do pagodão baiano (que provavelmente envolve o ato de ralar alguma parte do corpo no chão). É como cair de paraquedas no meio de uma “Festa do P”* sem ter o direito de sair antes do fim.

Pior é quando isso acontece dentro do ônibus. A música, seja ela qual for, fica te perseguindo. Não a poltrona em que vc sente, sempre vai ouvi-la. E o “gosto musical” (musical?) é sempre parecido, Vc com certeza não ouvirá clássicos da MPB, genialidades da nova MPB ou a suavidade e poesia do pop, mesmo os grandes da axé music não aparecerão. Com certeza as opções variam entre o funk, o arrocha ou o pagodão. Dormir na viagem ou ler um livro sob o fundo musical ♪mexe o rabinho cachorra, mexe o rabinho cachorra♪ não é tarefa das mais gratas.

E existe uma lei para resolver a questão. A resolução AGERBA n.º 27/01 de 27 de novembro de 2001 no seu artigo 90, parágrafo VIII, determina que será impedido de embarcar ou retirado do veículo que fizer uso de aparelho sonoro após advertido pela tripulação. O celular, neste caso, é usado como aparelho sonoro (centro de entretenimento) e deve ser tratado como tal. Outros estados e municípios têm leis semelhantes, algumas delas, atualizadas, falam explicitamente do uso do celular.

Uma forma mais simples e amigável de resolver a questão é usar um dos milhares de recursos do celular, o fone de ouvido. Afinal de contas, o celular tornou-se uma central de entretenimento particular, privada, não coletiva ou comunitária. Assim quem quiser ouvir Justin Bieber poderá fazer isto sem causar um vômito coletivo dentro do ônibus.


*Festa do P: encontro de pagode baiano com bandas iniciadas com P (Parangolé, Psirico e outras que não lembro agora).

Clandestinos

Publicado: novembro 12, 2010 em Televisão

Normalmente não dou muita bola para as produções televisivas. Admito que gosto do Jô e do Luciano Huck, tá bom, gosto mesmo é do Lar Doce Lar, e gosto de desenho animado. O resto não prende muito minha atenção. Mesmo os telejornais eu substitui pelos canais de notícias da internet. Mas esta série (ou minisérie, não sei bem) da Globo deixa-me encantado.

Acabo de assisitr o segundo capítulo de Clandestinos. Acabo com o mesmo misto de emoção, nostalgia, diversão e ansiedade que experimentei no primeiro. A forma como são costuradas as histórias, os sonhos reais, de pessoas reais, é fascinante. Lirismo, erudismo e entrenimento mesclados a um humor gentil e sensível recobrem as cenas uma a uma, permitindo uma experiência sensorial marcante enquanto leve e bem dosada.

Se a história da mineirinha Adelaide, conquanto engraçada, fez-me chorar na estréia, agora o romance entre Edmilson e Chandelly gerou uma tempestade de emoções. O embate de identidades entre Gisele e Michele levanta questões primordiais, retomadas hoje em Chandelly, a velha pergunta: Quem sou eu afinal? A resposta parece vir ao se responder outra pergunta: Quem sou eu para o outro que me ama?

Ainda há histórias para conhecer e muita coisa para acontecer até a grande estréia da peça. Com certeza vale a pena deixar meu RPG de lado nas noites de quinta.

Quem quiser saber mais sobre a série e a peça que lhe deu origem acessem:
http://www.clandestinos.art.br/index2.asp
http://especial.clandestinos.globo.com/index.html

Sou um internauta desleixado. Gasto meu tempo na net buscando coisas edificantes para minha vida ou coisas divertidas. Acabo não vendo a quantidade de excremento (dizer merda é muito feio) que é jogada na rede. Hoje fiquei sabendo da Mayara Petrusco, dos ataques e acusações contra os nordestinos e da repercusão qu o caso tomou.

Tá legal, xenofobia é muito feio, assim como homofobia, racismo e qualquer tido de discriminação e preconceito. E não são coisas novas, muito menos veladas. Na verdade já fazem parte da cultura, estão nas piadas, nas expressões, no teatro e na TV (tudo que não presta está na TV, impressionante).

Mas algumas reações parecem ser contraditórias. Como o grupo que criou um blog para juntar todas os twitters com conteúdo xenofóbico. Parece mais um mural da xenofobia que um protesto. Tipo “-Vc que odeia nordestinos, não está mais sozinho, junte-se a nós nesta comunidade”. Não entendi o objetivo de juntar tantas frases ofensivas num só lugar. Tudo bem. Foi o jeito que encontraram de … contribuir?!

Mas a coisa é realmente feia, pensei em reproduzir alguns textos aqui, mas pensei melhor. O que é ruim não deve ser dissiminado, muito menos colecionado. Juntar o que não presta num só lugar nunca dá certo, veja Brasília. Posso dizer que os ataques são assustadores, não por serem contra nordestinos, mas pela ausência de humanidade das declarações. Lembram os discursos nazistas contra as “raças inferiores” que infectariam a humanidade com sua fraqueza. Nesta leva vão nordestinos, homossexuais, negros, índios, pobres, nerds, enfim, todos que não são arianos.

Até o momento a OAB de Pernambuco entrou com notícia-crime, a Safernet de São Paulo tb, entregando 1.037 perfis do twitter responsáveis pelos ataques, a Mayara Petrusco foi demitida de seu estágio (a mulé é estudante de direito, é mole?). E jurista admitem que os ataques são criminosos e agravados por serem veiculados em meio de comunicação devem render de 2 a 5 anos de cadeia aos autores.

Mas ninguém (grande mídia) aproveitou para tratar do assunto discriminação de forma mais ampla e educativa. Cuidar da discriminação plantada em nossa sociedade. ENsinar o quanto somos iguais e como nossas diferenças nos completam. Era um bom momento para promover a igualdade e a verdade, ao invés de alimentar o ódio mutuo, o desejo de vingança disfarçada em justiça e a divisão que gera morte, filhos da discriminação que os gerou.

Somos um.