Arquivo de novembro, 2009

Ô mundinho cheio de novidades esse da internet. Passo as minhas horas vagas (horas é pura ironia) no facebook jogando Mafia Wars com um monte de gente que não conheço. Na verdade é um monte de gente de todo canto do nosso pequeno planeta azul. Aquilo até parece uma torre de Babel. Mas até aí tudo bem. Participamos do jogo e tentamos nos comunicar usando a linguagem universal (inglês?) com a ajuda do Google Tradutor. O que me assusta são as outras coisas que acontecem no facebook.

O tempo inteiro recebo convites para os mais bizarros testes, quizz, grupos, aplicativos e páginas inpensáveis. Por exemplo: “seu filho com um famoso”, que mostra como seria seu filho com alguem famoso; ou “que personagem de A Próxima Vítima você é?”, não precisa explicação. Mas um convite de aplicativo em especial me chamou a atenção: “Friends for sale!”. Durante uma semana ignorei o convite até que hoje resolvi tentar entender do que se trata (poderia ser apenas uma frase de efeito). Não é uma frase de efeito.

O aplicativo tem a seguinte proposta: “Comprar e vender seus amigos como animais de estimação!” É exatamente o que está escrito na explicação do app. Compreenda bem a situação eu estou sendo convidado para negociar os meus amigos. O texto ainda continua: “…Faça o dinheiro como um astuto vendedor de animais de estimação” – ganhar muito comprando amigos baratos e vendendo por um preço maior – “ou como uma mercadoria quente!” – ou fazer sucesso como a mercadoria do momento. Imagine a alegria de ser um amigo super-valorizado, vendido por milhões em leilões disputados.

Num mundo onde valores como amizade, honestidade e vida tem sido relativizados ao extremo eu não deveria estranhar uma proposta como esta. Na verdade deveria estar preparado para o dia em que isto se tornar realidade. Terá mais amigos que puder pagar mais. Lojas de amigos oferecendo modelos diversos para todos os gostos e bolsos. Já posso até me ver numa dessas lojas.

– Preciso de um amigo com cerca de 30 anos de idade, que goste de debates mas seja divertido, ouça rock’n’roll e ria das minhas piadas, mas estou sem muita grana no momento. Aceita cartão?

Carro importado: 150.000,00 no mastercard
Casa de praia: 800.000,00 no mastercard
10 amigos para um churrasco: 10,52 no mastercard
Cativar alguém: não tem preço.

Fala disso também

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Legio Omnia Vincit

Publicado: novembro 10, 2009 em Egolatria
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Algumas pessoas me perguntaram recentemente sobre esta emblemática frase que acompanha os meus e-mails. Como eu estou pra explicar e não para complicar resolvi elucidar o mistério. Trata-se de um dito latino aplicado ao exercíto romano nos tempos do império. Mas é melhor eu começar do começo.

Quando comecei este blog eu estava passando por um momento extramamente difícil da minha vida. Meu mundo havi desabado num oceano profundo e escuro. Todas as minhas perspectivas, todos os meus planos, tudo desmoronou. Olhava para frente e só via o imenso nada que restou. Olhava para trás e via os escombros da destruição. Assim fica muito difícil viver. Precisava me reeerguer.

Como eu sou um amante das palavras, e sempre acreditei no seu poder transformador, decidi que elas seriam o meu caminho de redenção. Cerquei-me de frases, musicas, poesias, ditados populares, tudo que fizesse menção à superação, à vitória. Foi aí que surgiu na minha mente esta frase: “Legio omnia vinci” (não tenho certeza se é vinci ou vincit). A legião vence tudo.

Diante de um mundo despedaçado eu precisa desta certeza, a legião vence tudo. Não existe derrotam quando estamos unidos numa legião. Este era o segredo do exército romano. A legião. Organizados em grandes grupos, de até 6.000 homens, dividos em coortes, formavam um grande tabuleiro de xadrez que avançava contra os inimigos. Quando os adversários pensavam que estavam vencendo se viam envolvidos pela legião e sem condições de escapar. Era impossível supreender a legião, impossível vencê-la.

Duas características da legião romana me chamam a atenção. Primeiro, eles usavam armas leves, preferindo a agilidade à força. Segundo, eles moviam-se e lutavam como se fossem um único corpo, totalmente coordenados. Assim, sem armas pesadas, sem grande poder de fogo, mas com agilidade e uma unidade incomparável eles construiram o Império Romano, venceram tudo.

Assim estou vencendo os adversários. Desprovido de toda carga que antes carregava com orgulho. Livre e ágil nos movimentos que reconstroem a minha vida. Contando sempre com a ajuda de uma verdadeira legião de amigos e irmãos. Posso exclamar como os soldados romanos: legio omnia vinci.

Estou em Salvador participando de um encontro de comunicação. Ontem tivemos a presença de D. Orani Tempesta, presidente do setor de comunicação da CNBB. Ele falou um pouco sobre a missão comunicadora da Igreja, de como a comunicação pode, e deve, ser usada como ferramenta evangelizadora, transformadora da realidade e de como a Igreja precisa se especializar cada vez mais no uso dos meios.

Durante esses dois dias estou no meio de comunicadores livres, discutindo os caminhos da comunicação na construção de um novo mundo, e assisto horrorizado uma notícia velha e chocante, mais uma vez os jornais alertam para o processo de eliminação da liberdade de imprensa nos países da América do Sul. É um contracenso.

Não consigo imaginar, nem nos meus maiores pesadelos (e olha que meu pesadelos são aterrorizantes) um retrocesso tão grande no processo de desenvolvimento de um povo, como seria a quebra da liberdade de comunicação. Emissoras de televisão fechadas por desagradarem os planos do governo. Comunicadores perseguidos, processados, por divulgarem os fatos, a real situação de que está debaixo de uma nova ditadura (nova é só questão cronológica, porque de fato tem as mesmas características das antigas).

O pior de tudo é que os “grandes” países do Mercossul, os defensores da demogracia, o pessoal dos direitos humanos, nenhum deles, ninguém se levanta contra esta situação. Somente os comunicadores livres que ainda restam lutam pelos direitos dos seus colegas de outras terras, direitos que são de toda uma população que sem comunicadores livres ficará aprisionada intelectualmente e ideologicamente ao pensamento dos ditadores.

O título deste post é a ordem dada a quem tem o que dizer. Felizmente há muita gente mal educada, que não costuma obedecer ordens. Que enfrenta os poderes e assume o risco castigo, para realizar a verdade na qual acredita. Falam do que não querem que falem.

Fala disso você também. O mundo livre agradece.

Em busca de heróis III – A missão

Publicado: novembro 4, 2009 em Sociedade
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Muita gente pediu uma continuação da série em busca de heróis. Sinal de que eu escrevi algo de bom afinal. Após a morte de Lévi-Strauss fiquei me perguntando: – Quais são os pré-requisitos para se tornar um herói nos dias de hoje? Eu falei de santos, honestos, bombeiros e até de ingênuos como possíveis candidatos a herói. Mas, será que é por aí mesmo? Será que basta ser representante de um valor superior (transcendente) para ser um herói?

Penso sinceramente que o pai (ou a mãe) de família que consegue manter a coerência sustentando a casa com um salário mínimo (e bota mínimo nisso) é um herói nato. O estudante de escola pública que consegue, sem direito a cursinho, uma vaga numa universidade federal é digno de condecorações. Na verdade acho que um estudante de escola pública que não seja analfabeto funcional já está num bom caminho.

Aqui preciso fazer um a parte. Quando falo da escola pública estou generalizando (eu detesto generalizações mas admito que às vezes são inevitáveis). Existem sim escolas públicas que conseguem vencer as barreiras da burocracia e da inércia para oferecer um ensino de qualidade. Mas isto é assunto para outro post.

Voltando ao assunto. O morador de rua que não se deixa seduzir pela bebida, pela droga, nem se torna um criminoso é mais que herói, é um santo. Volto eu para a questão da honestidade. Mas ela é um elemento importantíssimo. Como a ética e a moral (se é que são diferentes entre si). Mas tenho observado um elemento que desde a década de 90 do século passado tem transformado os hérois dos quadrinhos. O héroi precisa ser humano. Ter defeitos, imagine só, é parte do heroísmo. Lutar contra si mesmo e vencer é uma característica do verdadeiro herói. Passar por cima do seu egoísmo, comodismo, medo. Vencer a própria mediocridade é o mais puro heroísmo.

Acho que encontrei minha resposta. E você o que acha? Fala disso também.

O Homem perde seu tutor

Publicado: novembro 4, 2009 em Sociedade
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Enquanto muita gente teimava em tentar ver o homem através de números frios e sem sentido, Lévi-Strauss percebeu que a sociedade é fruto de estruturas, nem sempre conscientes, que não podem ser simplesmente quantificadas. Foi até o homem e, ao contrário dos cinetificistas que insistem no afastamento, aproximou-se do homem no seu meio social, para conhecê-lo, mais que para estudá-lo. Graças à sua coragem e paixão pelo ser humano as ciências sociais deram um salto qualitativo estupendo. O homem passou a ser visto como homem.

Morreu neste domingo aos cem anos de idade. Recebeu homenagens e congratulações em vida. Foi reconhecido por sua obra no mundo inteiro e é considerado um dos maiores pensadores franceses (era o maior pensador vivo). O mundo despede-se de forma justa e digna do antropólogo que mudou o jeito de ver o homem.